25 Abril 2006

Comer, beber e dormir em São Bento do Sul

Semana passada estive por três dias em São Bento do Sul, no planalto norte catarinense. Duas dicas pros viajantes: o Hotel Stelter é um dos melhores lugares onde já me hospedei. Limpo, confortável, com funcionários atenciosos e atentos aos detalhes, como lavar os vidros dos carros, tirar poeira dos lugares mais escondidos e acordar você por telefone dizendo: "Bom dia! São sete horas, o termômetro marca 14 graus e o céu está azul". O café da manhã é um espetáculo, dá vontade de ficar horas ali. Outro destaque da cidade é a cervejaria Alpenbier, que apesar daqueles horríveis veados empalhados na parede, produz uma cerveja de primeira qualidade - recomendo a Draft.

A Ilha

Parte 2

II. Val

Apontada pela Polícia Naval como líder dos piratas, Val mora na favela flutuante Pirajubaé II. Teria sido presa uma vez e escapado espetacularmente enquanto era transferida para a ilha artificial VOC. Mas ninguém confirma a história. Fala-se que criou uma organização de proteção, que cobra taxas (em parte usadas no pagamento de subornos) para operar a entrada na ilha por portos não autorizados, em áreas fora das baías.

Isso permitiria a permanência de algum tráfico de drogas e outras mercadorias ilegais na ilha, mesmo após a erradicação dos traficantes dos morros. Mas Val não se envolveria diretamente nessas operações. Pelo que dizem, ela comanda uma rede de pequenos grupos baseados nas favelas flutuantes. Também dizem que é apenas uma gerente, e que o grande chefe seria um rico investidor da colônia continental.

Sob pressão cada vez mais intensa do governo federal...


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24 Abril 2006

Desmatamento na Lagoinha

“Estão desmatando uma área de vegetação de capoeira no canto esquerdo da praia da Lagoinha do Leste.” O fotógrafo Victor Carlson não só constatou isso no próprio local neste fim-de-semana como também registrou a ação dos (ir)responsáveis pelo desmatamento (como mostra a foto abaixo - clique para ampliar). No blog www.victorcarlson.blogspot.com, Victor publicou uma seqüência de imagens mostrando e indicando os pontos de desmatamento.

Galeria aberta

A partir de agora, além das imagens publicadas nos posts, o +D1 passa a contar com uma área específica para a publicação de fotos. Batizada de Galeria +D1, a nova área fica na coluna à direita e utiliza uma conta do Flickr, site de armazenamento de fotos. Na área, o internauta visualiza as fotos em miniaturas e basta clicar duas vezes na foto escolhida para ampliá-la.

E além dos integrantes do +D1, a Galeria +D1 está aberta também para a participação dos internautas. Para isso, basta enviar sua foto - dentro do tema Cidades - com título, descrição e crédito (com email válido) para o email maisdeum@gmail.com.

23 Abril 2006

Um passeio pela cidade, sábado à tarde...


A cidade nos oferta o lazer por ser pública e do público:
re-pública.

Fui ao espaço público do MAM para duas grandes mostras de arte que abrem a temporada de outono no Rio: Roy Lichtenstein e Joan Brossa. Tanto o americano (NY) quanto o Catalão (Barcelona) são protagonistas e tradutores de ótimas emoções visuais de suas respectivas cidades: a arte em quadrinhos do
pop-artístico, no registro das décadas “american way of life” – 45/50 e 60 – até o "desbunde" do anos 70 que Roy Lichtenstein apresenta no seu trabalho é muito bom: loiras, ruivas, lágrimas, cenas. Isto já tinha valido o ingresso.

Mas os poemas -objetos de Joan Brossa, valem cada olhar cuidadoso e muita calma para fisgar os detalhes, tanto das palavras quanto dos objetos. Pra quem tem relações minimamente estreitas com a arte catalã (Gaudi, Miró e Picasso, só pra ficar nos mais conhecidos) vai se impressionar com a força do trabalho de Brossa. Resistente na insistência da língua pátria como referência e código de mensagens – poucas coisas são em espanhol ou outra língua – ele ainda brinca com o inusitado de maneiras às vezes sutis e outras como um soco no estômago, como a foto aí acima.
Quem estiver pelo Rio ou vindo pra cá, vale reservar pelo menos um sábado à tarde...

A Ilha

Parte 2

I. Jan

Nem todos os holandeses que chegaram à ilha de Desterro são ricos. Jan van der Barr é um dos típicos trabalhadores de classe média atraído para o além-mar pelas oportunidades de emprego criadas pela VOC. Guarda marinho da Polícia Naval (PN), Jan comanda uma das 40 equipes móveis encarregadas de defender as entradas marítimas da cidade contra a ação de piratas. Os criminosos agem em geral à noite, partindo das favelas flutuantes, onde a PN não entra.

Na verdade, entrou uma vez, quando os piratas ousaram desembarcar na ilha para perseguir um homem, provocando um tiroteio que atingiu uma escola. Várias favelas flutuantes foram cercadas pela PN, mas a operação durou poucos dias e não resultou em nenhuma prisão. Jan foi um dos homens encarregados de entrar naquela zona de sombra para informar aos piratas de que nem todas as ações deles seriam, na prática, toleradas. Piratas e policiais navais acabaram aceitando um acordo tácito. No fundo, precisam uns dos outros.

Apontada pela Polícia Naval como líder dos piratas...

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21 Abril 2006

VIVÍAMOS EM ÁRVORES


Num programa de televisão de São Paulo a apresentadora anunciava a sua surpresa por ter visitado o "Sul" pela primeira vez e não ter encontrado ninguém em cima de cavalo e todo pilchado. Uma vez em plena Avenida Paulista alguém me perguntou como era viver nos anos 50.
- Vivíamos em árvores, respondi. Falávamos por sons guturais e batíamos no peito.
Ele quase acreditou. É impressionante o mal que fez o movimento nativista para a porção urbana majoritária dos riograndenses.

Nas memórias de João Neves da Fontoura, o grande tribuno da revolução de 30, Porto Alegre do início do século é descrita como uma cidade de efervescência cultural e política. Érico Verissimo, na Editora Globo, editou Virginia Wolf quando ela era ainda quase desconhecida na Inglaterra. Hoje se admite, que, vá lá, Porto Alegre até que é uma cidade como as outras, não tem grosso raspando esporas no meio da rua (a não ser para fingir que é gaúcho; costumo dizer aos portoalegrenses: gaúcho, só quem nasceu do rio Ibicuí para baixo). Já o interior...

No final do século 19, minha cidade, Uruguaiana, dispunha de uma rua só de casas comerciais com produtos europeus. No teatro, se apresentavam as companhias que vinham de Montevidéu e Buenos Aires. O futebol ganhou raízes lá graças à linha de trem, que ligava as capitais do Prata à fronteira e trazia os ingleses ruins de bola. O clube que tem o nome da cidade é de 1912.

Concebida pela engenharia militar, Uruguaiana é uma cidade projetada, com largas ruas e calçadas. Nas minhas visitas periódicas que tenho feito sempre em novembro, época da feira do livro, redescubro a função da calçada larga: o convívio humano. Nelas dá para conversar enquanto as outras pessoas passam. É óbvio, mas não para quem esqueceu, perdido numa megalópole onde calçada é reduto de automóveis.

Na foto antiga que estou postando, vemos uma cena dos anos 40, com grande quantidade de carros (ok, ok, tem algumas carroças). Chovo no molhado aqui neste blog, feito por pessoas que vivem abaixo do rio Pinheiros (para o Paulista, o limite da civilização; cruzando o rio poluído, é tudo Gramado ou Porto Alegre). Mas é bom dizer que Uruguaiana, por ficar na fronteira com dois países, e ser rota de passagem de farto turismo internacional (tudo bem, a maioria são de argentinos), e por preservar sua geografia urbana, é um caso especial, não só para os nativos, mas para todos que a conhecem ou querem conhecer.

Cavalo? Quando montei um, senti vertigem. Me tirem de cima daqui! implorou o urbanóide. Árvores? No pampa (que fica fora da cidade), há a vegetação na beira dos arroios e só de vez em quando o descampado revela uns tufos de umbu, bons para sombra, onde se toma o chimarrão. A cidade é toda arborizada, graças à gestão de dois prefeitos trabalhistas dos anos 50. Nelas fazíamos a festa. Pensando bem, vivíamos mesmo em árvores, pelo menos naquela infância.

A Ilha 2

A elevação do nível do mar em nove metros levou a ilha ao caos. A zona urbana foi inundada, a economia entrou em colapso, a capital foi transferida para Blumenau e o que restou da cidade ficou sob o controle de traficantes. A empresa holandesa VOC conseguiu do governo federal uma concessão de 50 anos sobre a ilha. Com auxílio de um braço militar (Polícia Naval) e outro de comunicação (VOX), a VOC ocupou e remodelou a cidade. As favelas e os traficantes foram expulsos dos morros, agora transformados em áreas nobres. Os pobres formaram favelas flutuantes sobre as baías, adotadas também como base para uma nova organização fora-da-lei, os piratas. No Leste, comunidades nativas rurais formaram-se fora do alcance dos holandeses. Mas pressões de nacionalistas fizeram a VOC adiar os planos de ocupação também do Leste.




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20 Abril 2006

Coffee shops de Amsterdã


Há quinze anos visitei Amsterdã e, entre outros atrativos - museu do Van Gogh, fábrica da Heineken, casa da Anne Frank, etc -, me encarnei em fotografar as fachadas de alguns dos muitos coffee shops que existem na chamada Red Light District (mesmo bairro central onde as prostitutas ficam nas vitrines).
O interesse surgiu, obviamente, pela decoração diferenciada que esses estabelecimentos tinham. Como as fotos comprovam.
O primeiro encontro da turma do +D1 no velho continente podia ser em um desses lugares, que tal?

19 Abril 2006

“...O barco... meu coração não agüenta... tanta tormenta...”



Grandes cidades do mundo à beira mar, ou à beira rio, realizaram projetos de revitalização das áreas portuárias. No Brasil, Belém é um excelente exemplo. Lá fora, tive a oportunidade de conhecer o trabalho em Lisboa e Barcelona. Aqui no Rio, existe o tal projeto da Prefeitura em parceria com o Governo Federal que desde há muito está emperrado nas burocracias das máquinas público-administrativas. Como é que pode um lugar que é o berço da cultura carioca, testemunha do nascimento do samba nas casas das tias que moravam no Morro da Conceição, acima da Pedra do Sal, entrada de estrangeiros vindos de navios e coração da cidade, ficar assim tão abandonado? As tentativas ainda não decolaram: festas nos armazéns do cais, Cidade do Samba, resgate imobiliário, são ações paliativas que na prática ainda não apresentaram resultados concretos. Quando é que esses carinhas que “cuidam” do patrimônio histórico e social vão fazer uma investida séria na cidade que governam?

Acho difícil, enquanto se diz: Maia, num mundo Rosinha, cercado de Garotinho por todos os lados...

Hoje é Dia do Índio

“O declínio dos povos da Tradição Guarani não só na Ilha de Santa Catarina, mas em toda região Sul, teve como ponto crucial a chegada dos colonizadores europeus, sobretudo por volta do século XVII, quando a ocupação passou a ocorrer com maior freqüência. Além de indefesos diante da tecnologia bélica dos invasores, os Guarani sucumbiram também diante de doenças como gripe, varíola, sarampo, malária, tuberculose, tifo, ente outras, que foram responsáveis pela morte de muitos índios. Restou aos Guarani a tentativa de sobreviver em pequenos grupos, mudando freqüentemente o local de seus assentamentos.

Ainda hoje, descendentes dos índios Guarani vivem na região da Grande Florianópolis. Eles estão em pequenas ‘áreas indígenas’, localizadas às margens da rodovia BR-101, nos municípios de Palhoça e Biguaçu, onde produzem e comercializam peças de artesanato (cestos de vime, arcos e animais talhados em madeira). Parte do que é produzido também é comercializado nas ruas do centro de Florianopolis.”
Trecho extraído do livro Aventura Arqueológica na Ilha de Santa Catarina, de Alexandre Gonçalves e Victor Carlson - Lagoa Editora, 2003)

Taxistas e cidades

Em Hannover, na Alemanha
Fui cobrir a Feira Industrial de Hannover pela revista Empreendedor, em abril de 1995. No dia de ir embora peguei um táxi até a estação de trem. Para surpresa do motorista, sentei no banco do carona, na frente. E com meu inglês “let it be” (ou seja, diplomado pela Escola Beatles de Língua Inglesa) conversei com ele e descobri que era desertor do Exército iraniano e que tinha fugido para a Alemanha por causa da guerra Irã-Iraque. Ele disse que gostaria de conhecer o Brasil, que achava as mulheres brasileiras muito bonitas. O iraniano disse também que gostava muito de Hannover, mas o povo era muito frio. Raramente os passageiros sentavam no banco da frente do táxi.
[Deslocamento da estação de trem de Hannover até a estação de trem de Frankfurt.]
Em Frankfurt, na Alemanha
Da estação de trem até o aeroporto de Frankfurt, peguei outro táxi. O motorista também era um imigrante, desta vez um senhor etíope com idade entre 55 e 60 anos. Quando eu disse que era do Brasil, ele sorriu e encheu de elogios o zagueiro Júlio Cesar (aquele da Copa de 86) e o volante Dunga, que jogavam em clubes da Alemanhã na época. “Dunga is a good player”, disse ele. Futebol à parte, quis saber qual a impressão dele sobre a cidade, do ponto de vista de um imigrante. Citei o que o iraniano havia me dito em Hannover. Ele concordou sobre a frieza dos alemães, mas ali havia uma coisa diferente: por causa da localização da cidade (que fica bem no centro da Europa) e do aeroporto (um dos mais movimentados do mundo), havia muita gente de outras nacionalidades circulando por Frankfurt. Esse ar “cosmopolita” para o taxista superava a frieza dos alemães.

18 Abril 2006

Lugares que deixam saudades


Qual a cidade mais bonita que você conhece? Essa pergunta dá margem à diferentes interpretações. Primeiro, há uma diferença entre lugar e cidade. Fosse o lugar mais bonito, é provável que eu mencionasse na resposta Fernando de Noronha. Mas a Vila dos Remédios não é bem uma cidade e a beleza, nesse caso, está na paisagem natural e não propriamente no aspecto urbano... apesar de ambos serem indissociáveis nessa questão.
Entre as cidades brasileiras, na opinião de qualquer um, o Rio de Janeiro, do nosso correspondente Raul, é uma forte candidata a mais bela. Realmente é maravilhosa por natureza. Mas a dificuldade nessas escolhas é a necessidade de fazer comparações, eventualmente injustas. E a resposta é essencialmente subjetiva: pessoas gostam de coisas - e cidades - diferentes.
Pegando carona na idéia das listas do Dauro, tentei fazer uma lista de dez cidades que conheci e que gostaria de passar algum tempo - pouco, muito - novamente. Mas não consegui, a lista insistia em crescer demais. Por isso, apenas repito o nome de duas cidades brasileiras já citadas neste post e que me dão muita saudade: Rio de Janeiro e Fernando de Noronha. Um dia vejo vocês de novo...

A foto é na praia da Conceição, em Fernando de Noronha.

17 Abril 2006

IBGE e Google Earth

O IBGE acaba de lançar um software que funciona acoplado com o fantástico Google Earth. Com ele é possível localizar no mapa todas as cidades brasileiras e ter acesso imediato às estatísticas de cada uma. É um recurso extraordinário pra estudantes, viajantes, pesquisadores, apreciadores de mapas e apaixonados pelo Brasil em geral. Basta instalar o programa no seu micro, abrir o Google Earth e seguir as instruções.

En busca de la palabra más bella

O sítio espanhol “Escuela de Escritores", da cidade de Madrid, promove a eleição da palavra mais bonita em castelhano. Além de ser divertido votar, ainda rola a chance de poder fazer uma oficina literária no meio do ano, por conta de um sorteio promovido pelos organizadores. Aproveitando o gancho, quais são as palavras e/ou gírias e expressões que mais identificam o lugar onde você mora? Aqui no Rio elegi “já é”, “geral já sabe” e “demorou”.

Antônio Carlos, a bola da vez?!

Estou preocupada. Andam falando muito da minha terra natal ultimamente. Depois que a pequena Antônio Carlos, 36 km ao Norte de Floripa, foi citada pelo IBGE como a segunda cidade do Brasil com maior expectativa de vida, a terrinha tem aparecido direto na mídia. Começou com o Globo Repórter que foi até lá para tentar entender qual é o segredo de tal longevidade. Entrevistaram "Seu Miné", o leiteiro de 75 anos que, ironicamente, povoava minha imaginação ao ler o poema "Morte do Leiteiro", de Carlos Drummond de Andrade. O Diário Catarinense, na sua edição de domingo, deu três páginas para contar o estilo de vida dos moradores mais idosos. E agora, será que todo mundo vai querer morar lá? Exageros à parte, a verdade é que a cidade tem recebido muitos novos moradores e já começam a aparecer alguns focos de favelização. Dizem que o bom filho à casa torna, mas no ritmo que vai, não sei não... Não dá mais para dormir de janela aberta.

16 Abril 2006

Blogs e cidade

Exemplo publicado no New York Times:
Um exército de blogs contra um projeto de construção
(...) Cerca de uma dúzia de blogs seguem de perto o Atlantic Yards, um conjunto residencial, comercial e de arena desenvolvido perto do centro do Brooklyn. Os autores são geralmente ‘brooklynitas’, alguns deles especialistas em campos como desenvolvimento urbano. Mas mesmo os amadores entre eles têm persistido sobre misteriosas provisões de zoneamento, e os truques da lei de planejamento podem induzir dores de cabeça entre os menos devotados.

Leia a reportagem completa.
(em português, via Último Segundo)
Um exército de blogs ajudaria a brecar ou a rever algum projeto que esteja sendo implantado na sua cidade?

15 Abril 2006

Carioca

s. m. e f. Pessoa natural ou habitante da cidade do Rio de Janeiro. Adj. 1. Relativo à cidade do Rio de Janeiro. 2. Designativo do café misturado com água. 3. Qualificativo de uma raça de porcos domésticos.

Todo mundo é carioca. Isto é fato. Basta um fim de semana por aqui e já começa a falar com o S diferente, chiando. A definição do dicionário é boa, mas é pouco, - embora ser café misturado com água e uma raça de porcos domésticos (quero um papel de ator aí, Dauro!), já faz da gente um povo muito estranho. Sempre digo que se o Brasil é uma síntese do mundo, o Rio é uma síntese do sistema solar e Copacabana a síntese de todo o universo. Por isso, acho que o bairro resume muito bem o tal “jeito carioca”, uma concentração do “jeitinho brasileiro”. Moro bem no olho do furação: a rua principal, que corta ao meio os edifícios imprensados entre o mar e a Lagoa, alimentada por um trânsito de gente, carros, cachorros, madames, camelôs, turistas, padres e putas. Por ser cosmopolita, Copacabana funciona 24 horas. Qualquer coisa pode ser comprada (do padre à puta) com um telefone e um cartão de crédito. Mas se você não possui nenhum dos dois, aceitamos ticket, vale transporte, cartão de telefone, cheque pré, ou até uma cerveja, que, aliás, é a moeda de troca oficializada pela polícia na hora de cobrar uma propina ou suborno. Se você viver em Copacabana algum tempo, vai descobrir assim o carioca: não cumprimos compromisso, chegamos atrasados, fazemos amizade facilmente e gostamos de nos misturar – nossa matéria prima – com tudo e com todos. Nunca negamos uma hospedagem, pois temos a essência do homem cordial. Praticamos o erotismo à flor da pele: “azaramos” até postes e árvores. Nosso oposto no espelho é São Paulo, onde já disseram ser o lugar mais estranho pra fazer amor.
Para encerrar, duas do cronista desta cidade, que mais foi fundo nas mazelas que ela nos dá, Nelson Rodrigues: “A maior solidão é a companhia de um paulista” e “A maior ilusão é a amizade de um carioca”.
Não acreditem em verdades absolutas.

... E por falar em carioca...

Temos também o Chico Buarque. Nós homens cariocas já nos conformamos com a seguinte situação: todos somos um traído em potencial quando o caso é este garotão sessentão. O moço acaba de lançar um novo disco e acho que pra variar, vem coisa muito boa por aí: a gravadora Biscoito Fino já antecipou as vendas pela rede e eu que já reservei o meu, estou ansioso pra ouvir o “Carioca”.

13 Abril 2006

Treze cidades, treze momentos

Caminhar olhando os coqueirais arrastando os pés na areia branca das ruas de Maxaranguape, no litoral potiguar.

"Esperar o rio" tomando cachaça com sirigüela em Russas, no sertão do Ceará; na seca a água da barragem é liberada de tempos em tempos.

Vender camisas da seleção brasileira numa banca de camelô no centro de Manaus; a saída precoce do Brasil na copa de 90 foi um baque pros negócios.

Banhar-se numa bica de água gelada na beira da estrada em Minas Gerais, durante viagem de caminhão. Que cidade seria aquela ali perto?

Tomar vinho tinto esperando o churrasco no fogo de chão com uma família de criadores de cavalos, à margem do Lago Puelo - El Bolsón, sul da Argentina.

Pedalar com a amada pelas ruas estreitas de Lucca, na Toscana, Itália.

Beber sem pressa um caneco de cerveja da boa no centro histórico de Praga, olhando o movimento.

Fazer a trilha da Lagoinha do Leste (Floripa) pelo costão, num dia de sol.

Comer cazuela de mexillones no mercado público de Santiago do Chile.

Perder-se no metrô de Tóquio.

Comer num restaurante popular de Bangcoc e conversar de futebol com os locais sem ninguém entender uma palavra da língua do outro.

Dar autógrafos para estudantes em Taejon, Coréia do Sul, depois de ser apontado, numa pegadinha do intérprete, como jogador da seleção brasileira.

Flanar por Amsterdã ao som inspirado de quatro gaitas do maestro Ricardo Szpilmann.

~

Que momentos você associa com as suas cidades?

A Ilha

VIII. Fronteira

Protestos em Blumenau e Brasília alertaram para a formação de um enclave estrangeiro na ilha, tornada cada vez mais holandesa pela onipresença da rede de comunicação VOX, a ocupação militar pela Polícia Naval e o investimento externo maciço direcionado pela VOC. O governo do Estado recém-instalado em Blumenau passou a pressionar as forças federais para a aplicação de antigas leis de nacionalização.

Setores mais radicais da Marinha conseguiram mobilizar dois navios para exercícios de guerra a poucas milhas da zona holandesa. Com a tensão política, a Polícia Naval suspendeu os planos de ocupação das aldeias no Leste da Ilha. Desterro permaneceria assim dividida. De um lado, o Leste nativo isolado e pouco povoado. Do outro, o Oeste estrangeiro, com os ricos morando na segurança dos morros e os pobres sobre as oscilações das marés, aglomerados nas favelas flutuantes das baías.

Fim (da primeira parte)

Segunda parte

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11 Abril 2006

Dauro e Adriane contemplados

Dois integrantes do +D1, Dauro Veras e Adriane Canan, estão entre os contemplados pelo Edital da Fundação Catarinense de Cultura/Cinemateca Catarinense - Edição 2005. Dauro está na lista de contemplados na categoria Documentário Média-Metragem com o projeto “Espírito de Porco”, e Adriane na categoria Pesquisa e Desenvolvimento de Roteiro Cinematográfico para Média e Longa-Metragem, com o argumento “Somente os bons homens podem tocar os sinos”.

O seu lugar

O post Na faixa me fez lembrar algumas coisas e pensar como uma cidade ou um determinado lugar pode mudar nossos objetivos de vida, nossos sonhos. Tem gente que veio pra Floripa passar um tempo, se apaixonou e não quer ir embora de jeito nenhum. Outras pessoas não conseguem viver longe de São Paulo, Rio de Janeiro e tem até a nossa colega que confessou seu imenso amor por Criciúma. Ainda existem aqueles que não conseguem morar em um só lugar, talvez por serem mais fugazes ou porque simplesmente ainda não encontraram o seu lugar.

Eu tive alguns objetivos de vida mudados por uma cidade, ou melhor, um país. Quando conheci a Espanha e mais especificamente Barcelona, que nem estava no meu roteiro inicial, fiquei completamente fascinada e desde então o meu objetivo passou a ser viver lá por algum tempo. Claro que como eu sempre tenho o plano B (quem me conhece já sabe), penso também em outras cidades no Brasil e tenho que confessar que gosto bastante de Floripa, mas não pretendo morar aqui para sempre. Pelo menos não até eu descobrir um cantinho que me deixe completamente apaixonada pela ilha e me prenda nela.

Indo um pouco mais além da pergunta citada no post Na faixa, onde você gostaria de morar por um tempo ou para sempre? Este lugar já existe pra você?

10 Abril 2006

Nomes

Caiçara do Rio dos Ventos, RN (poético)
Passa e Fica, RN (convencido)
Pau dos Ferros, RN (curioso)
Florianópolis, SC (a ferro e fogo)
Jaboatão dos Guararapes, PE (épico)
Presidente Médici, AM (baba-ovo)
Presidente Figueiredo, AM (idem)
Parnamirim, RN (beem melhor que Eduardo Gomes, como um baba-ovo já a batizou)

Na faixa

Me fiz uma pergunta no fim de semana: que cidade você, Alexandre, gostaria de visitar e conhecer? Pensei. E descobri que não quero conhecer uma cidade. Quero mesmo é visitar apenas uma rua e passar por uma faixa de pedestre, aquela que fica em Londres e ilustra a capa do disco Abbey Road, dos Beatles (ao lado). E acabei de achar outras 151 pessoas que querem fazer o mesmo que eu: atravessar a faixa do Abbey Road.

E você, o seu maior desejo é visitar uma cidade ou um ponto específico de uma cidade, como a faixa dos Beatles?

O convite e as minhas cidades

Abri hoje pela manhã minha caixa de correio e recebi com muito orgulho e modéstia o convite para participar efetivamente deste time de craques da palavra, no +D1. Espero ter a certeza de poder contribuir e aprender com todos e aprimorar o pequeno dom que me foi dado, que é escrever. Como o tema é cidade, quero dizer que Rio, Recife e a Ilha de Santa Catarina serão meus assuntos mais corriqueiros: Rio é onde vivo, trabalho e convivo mais próximo dos meus amigos e família. Recife é a cidade que me abastece culturalmente e onde pretendo realizar alguns sonhos profissionais. E Floripa me conquistou, como fez com todo mundo: ofereceu amores, amizades e uma natureza de deixar qualquer um de queixo caído, além de ter o Dauro, Laura eMiguel e agora o Bruno, as pessoas mais celestiais que conheço. Aliás e contudo, devo ao Dauro a força de fazer um blog e entrar de cabeça nas viagens literárias e virtuais. Obrigado.

A Ilha

VII. Leste

O morro mais alto da cidade tornou-se também um ponto de apoio da VOC para a tomada do Leste da Ilha, intocado pelos holandeses e isolado desde que a elevação do nível do mar arrasou rapidamente os antigos bairros balneários. Alguns moradores pobres de pontos mais altos do Leste, sem ter para onde ir, permaneceram nas encostas dos morros, praticando uma economia de subsistência. Logo estabeleceram trocas entre si e formaram uma rede frágil de pequenas aldeias rurais, em contraste com a rica Desterro urbana dos holandeses do outro lado da ilha.

As aldeias do Leste começaram a ter o isolamento quebrado quando as lanchas da Polícia Naval chegaram para sondar a criação de colônias de holandeses também naquela região. Terminado o conflito com os traficantes no lado Oeste e tendo os piratas sob controle, a força militar foi dirigida para o Leste. Mas desta vez não havia a justificativa de combate ao narcotráfico ou à pirataria. Pressões políticas tornaram difícil para os holandeses remover essa gente.

Protestos em Blumenau e Brasília...

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09 Abril 2006

O que aconteceu no Santinho?

O noticiário da televisão anuncia o fato: turista alemão se afoga depois de tentar salvar a nora na praia do Santinho. Confesso que não quis saber detalhes do choro da família, esse tipo de matéria em que filmam funerais e não dá uma só migalha de informação. Queria saber o que realmente aconteceu, como era a vítima, o que fazia em Florianópolis, como se desenrolou o evento.

O sábado foi de esplendoroso sol. Dá praia até ao meio dia, sem torrar a pele, neste abril bonito demais. Imagino a família na beira do mar diante de um acontecimento desses. Onde estavam os salva-vidas? A notícia, sem detalhes, foi dada pela apresentadora, como se ela estivese fazendo rádio. Nenhuma só imagem, nada. Onde estavam as equipes de reportagem? Filmando loja de chocolate. Vocês sabem como funciona. Se chove, a equipe sai à rua e pergunta como é essa coisa de estar chovendo. Se faz frio, idem. Está frio? Com certeza, é a resposta. Dá para curtir? Dá para curtir, responde o interlocutor que ganha de presente a resposta em forma de pergunta. Isso acontece em toda a televisão brasileira, não há exceções. No Natal, Páscoa, a mesma pauta recorrente. Há variações, mas normalmente é a repetição de sempre.

Não se trata de fazer reportagem policial tipo Datena, põe na tela que eu quero ver tragédia. Quero ver jornalismo. Mas o que se faz é marketing. Estão comprando muito chocolate nesta Páscoa, puxa, puxa, puxa, diz o pobre repórter pautado pelo departamento comercial. E o alemão que se afogou? Como era seu nome? Nadava bem? Fumava? A quantos metros estava sua nora quando ele viu o perigo? Como são as correntes marítimas ali na praia? As pessoas viram? Quem era a nora? E o marido dela? Pode até ser que nas próximas edições façam um carnaval sobre tudo isso. Mas com tanta tecnologia, notícia é on-line, na hora. Tira a reportagem do shopping e toca para o norte da Ilha!

Como os jornais de domingo saem no sábado de manhã (invenção da Folha de S. Paulo, que não suportava a hegemonia do Estadão aos domingos, o que foi copiado por toda a imprensa), fatalmente nada disso está reportado. Nos sites, não consegui ver nada. Morre anonimamente o jornalismo entre nós. Em compensação, puxa, puxa, puxa, como temos ovinhos neta Páscoa.

08 Abril 2006

Cidade Futebol Clube

Neste domingo, dia 9, Figueirense e Joinville entram em campo no estádio Orlando Scarpelli, em Florianópolis, para a decisão do Campeonato Catarinense de 2006. E mais do que a rivalidade histórica entre os dois times estará em jogo também a rivalidade entre as cidades de Florianópolis, a capital, e Joinville, o pólo econômico.

Arrisco a dizer que para muitos catarinenses que acompanham futebol será o jogo da capital contra o interior do estado. Não por acaso, na hora de provocar, as torcidas do interior do estado colocam no mesmo saco Figueirense e Avaí, o outro cidade de Florianópolis, e gritam coisas do tipo “al-al-al, p** n* c* da capital”. E ouvem como resposta “ô-ô-ô, p** n* c* do interior”.

Infelizmente, esse tipo de provocação, que poderia ficar assim, só nas palavras, ganhou um outro contexto com a morte de um torcedor do Joinville. Após o ocorrido, que ainda está sendo investigado pela polícia, ficou decidido que não haveria mais venda de ingressos nem espaço reservado para torcidas visitantes. Assim, o domingo de decisão no Scaperlli terá apenas a torcida do Figueirense nas arquibancadas. E a rivalidade, não aquela que mata, mas aquela que revela a paixão pelo esporte e pela cidade, vai ficar de fora da festa.

(E que fique claro: em se tratando de futebol, antes de florianopolitano, sou avaiano. Portanto, sem chance de torcer para o Figueirense :)

07 Abril 2006

Um lugar pra jogar lixo


Conheço uma história pouco divulgada sobre o Rio da Madre, que na foto se afasta em direção à praia da Gamboa. No início da década de noventa, era considerado um rio classe 1 (ou seja, o mais livre de poluição possível). O prefeito da cidade (valeu a correção, Ana!) na época, um senhor com uma certa peculiaridade capilar, cujo nome vocês estão carecas de saber, desativou então o lixão do Itacorubi e o lixo gerado na capital passou a ser enviado para um novo aterro sanitário no continente. Esse novo aterro foi instalado em Paulo Lopes, em uma área de mata virgem, nascente desse rio, que passa por cinco comunidades antes de chegar ao mar. O contrato gerou polêmica (ou suspeitas...), a idéia não vingou, em poucos meses adotou-se outra solução (se não me engano, outro aterro em outro município vizinho). Lembro disso porque fiz uma matéria para uma disciplina do curso de jornalismo e fui fotografar o enorme buraco de lama que fizeram no meio do mato.
Hoje a poluição do rio (que no trecho próximo ao mar já foi considerado inapropriado para o banho) é causada pelo despejo irregular de esgoto, feito pelas próprias comunidades que usufruem dele.
Mas a praia é uma pérola. Eu já tinha feito um post anterior sobre ela.

A Ilha

VI. VOX

Com a ilha de Desterro pacificada e livre dos traficantes (mas não dos piratas), a VOC iniciou a construção da Base 2, em Crossberg, elevação onde ficavam as antenas das antigas emissoras de TV. Instalados em Crossberg, os holandeses tomaram efetivamente o governo de Desterro. Mas para isso precisavam de mais do que a administração da VOC e a organização militar da Polícia Naval.

A Base 2 abrigaria a VOX, a partir de agora praticamente a única fonte de informação para os habitantes da ilha. Redes de dados, voz e imagem ficaram a cargo da nova empresa, subordinada diretamente à direção central da VOC. A VOX passou a controlar todas as comunicações locais e da ilha com o exterior. Os holandeses criaram ainda serviços em sua própria língua dirigidos à cada vez mais numerosa colônia estrangeira, estabelecida tanto na ilha quanto no continente próximo. Eles chegam com dinheiro e apetite por negócios, ocupando todos os pontos-chave da nova cidade.

O morro mais alto da cidade...

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06 Abril 2006

Sobre bairros e birutas

Desde que mudei pra Floripa (em 1978, com seis anos), morei em uns dez lugares diferentes, em bairros diversos: Sambaqui, Centro, Serrinha, Lagoa da Conceição, Trindade e enfim o Córrego Grande, onde estou há sete anos. Não reclamo do endereço atual (apesar da falta de uma ciclovia), acho que tem mais qualidades que defeitos, mas lembro com saudade dos tempos na Lagoa. Na adolescência, morei em uma casa perto da Ponta das Almas, na margem da lagoa, e saía com frequência para remar com uma canoa que tinha lá. É mais um exemplo da qualidade de vida em Floripa citada pelo Frank.
Hoje em dia tem bem mais lanchas, jets e outros barcos motorizados naquelas águas, mas ainda se vê alguns a remo... nem que seja fazendo de biruta no telhado de uma baleeira, como na foto.

Postei uma foto parecida aqui.

05 Abril 2006

É logo ali (por falar em bike)


Tava eu de saco cheio e bolso vazio. Empurrei a bancada e a cadeira deslizou de ré. Levantei, estiquei as costas, alonguei e nesse espaço de tempo lembrei da bike.

Fui lá no quartinho e a tadinha tava que era só poeira. Pneus murchos encostada num canto cheia de tralha. Levei pra fora, passei um paninho, enchi os pneus, lubrifiquei a danada e saí contra o vento. Logo eu já tava botando os bofes pela boca. Resisti.

Continuei pedalando contra. Cheguei na praia depois desses quilométricos 400 metros.

Lá não tinha vento nenhum e a maré tava baixa. A praia tava lisinha, parecia um tapete. Fui bora deslizando.

Comecei a cantar e pedalar. Dancei em cima da bike. Empinei e fiz slalon. Acho que é a tal da endorfina inundava. Eu tava até rindo. Parei num trapiche lá no mangue da Cachoeira do Bom Jesus. Tava lindo, lindo, lindo memo. Putaquiopario! Deve ser essa porra a tal de qualidade de vida de Florianópolis. Ou algo parecido. Era inverno de 2005...

04 Abril 2006

A Ilha

V. Plataforma

Não foi por acaso que os administradores holandeses de Desterro escolheram como base de operações a ilha artificial VOC, uma grande plataforma sobre o estreito de mar entre as duas baías, erguida sobre as fundações das duas pontes paralelas que antes ligavam a ilha natural ao continente. A elevação do nível do mar alterou a estabilidade dos terrenos nas bordas dos morros. O novo regime de chuvas, agora mais abundantes, provocou freqüentes deslizamentos.

Com os morros não mais ocupados por favelas, mas abrigando bairros ricos, paraísos fiscais e reservas de água, a tecnologia de contenção dessas encostas tornou-se estratégica e foi posta em prática com eficiência. Mas até que os problemas geológicos e de segurança fossem resolvidos (com a remoção dos traficantes), a VOC comandou a remodelação da cidade de seu refúgio sobre o mar. As lanchas militares da Polícia Naval e os helicópteros da VOC ainda são os únicos veículos autorizados a se aproximarem da plataforma.

Com a ilha de Desterro pacificada...

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Mudança de perspectiva

Sabe, quando eu morava no interior de São paulo não via a hora de ir pra praia. Nossa era uma expectativa do ano inteiro. Meus pais sempre tiravam férias e a gente viajava em janeiro para o litoral de São Paulo, Paraná ou Santa Catarina. Lembro de cada um dos meus verões, das muitas queimaduras de sol, dos castelos de areia destruídos pelo mar, da coleção de conchinhas e do cheiro podre dos mariscos e conchas que a gente levava com o "bichinho" ainda dentro.

Depois que me mudei para Florianópolis, muita coisa mudou junto. As vezes fico meses sem ir à praia e não necessariamente porque esteja frio. Hoje tomo cuidado com o sol, não consigo mais rolar e me enterrar na areia como antigamente. Sinto falta da fazenda, do pomar, dos cavalos, do Rio que eu via da varanda da minha casa. Mas ao mesmo tempo sei que não voltaria para lá. Sinto que se eu sair de Floripa vai ser pra experimentar algo diferente, me intoxicar com a fumaça dos carros, ter o cinza como paisagem predominante. Nessa situação do que será que eu sentiria mais falta?

03 Abril 2006

Bicicletas

Quando eu e Carlito estivemos em Bonn (Alemanha), em 2003, me surpreendeu o número de bicicletas na universidade. É claro que eu já tinha ouvido falar da popularidade desse meio de transporte na Europa. Mas impossível não pensar que, se um desavisado comparasse o estacionamento da UFSC com o da Universidade de Bonn, diria que o primeiro mundo é aqui. Ou talvez o número de automóveis circulando não seja mesmo sinônimo de desenvolvimento. A falta de ciclovias sim, pode ser...

Veja o caso de Floripa. Outro dia, li no blog do colega Gustavo Cabral – ele ainda se arrisca a pedalar por aí – que um dos piores lugares para andar de bike é o Pantanal, justamente um dos bairros que cercam a UFSC. Movimentos como o Pedala Floripa já tentaram convencer a prefeitura de que investir em ciclovia seria uma maneira de estimular o uso da bicicleta e tornar a cidade mais viável. De lá para cá, foram construídos viadutos, vias marginais, avenidas sobre novos aterros. Poucas ciclovias.

Ilustrando


Antes do mar subir nove metros, uma onda de concreto cobriu a cidade.

Vista do morro da Cruz, há uns dois anos. Vale a pena atualizar...

01 Abril 2006

A Ilha

IV. Piratas

Expulsos dos morros, muitos pobres (e também gangues de traficantes) transferiram-se para o continente, em novas cidades que cresciam longe do mar. Mas nem todos foram embora. Com as antigas favelas transformadas em zona de ocupação militar e a política rígida da Polícia Naval de impedir novas invasões de terras, cortiços se formaram na única área da cidade onde ainda podiam ser tolerados: o mar. Casas flutuantes aglomeraram-se em balsas ancoradas no meio das baías, a uma distância segura da ilha.

Fazendas de criação de ostras haviam tomado grandes áreas inundadas pelo mar, mas o negócio foi prejudicado pelas ações de pirataria. A PN guardou os portos construídos para garantir o acesso dos ricos à ilha (já que os pobres chegavam de trem, atravessando a ponte velha) e pequenas batalhas navais entre forças policiais e piratas estouraram amiúde, destruindo as fazendas de moluscos. Mas os piratas foram mantidos sob controle, afastados da ilha e agindo na zona das favelas flutuantes a maior parte do tempo.

Não foi por acaso...

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30 Março 2006

Brasília e suas satélites de lama

Antes de mais nada, um grande abraço a toda a raça do blog. Saudades de vcs e de Floripa. No dia 24 deste mês, completei dois anos na capital federal. Acho que ainda não senti nenhum arrependimento pela mudança apesar de todos os pesares. Vivemos, eu o Botelho, pendurados no final da Asa Norte. Pra quem não conhece, o Plano Piloto é uma ilha cercada de miséria por todos os lados.

Outro dia tive que ir numa das mais de 300 obras inaguradas no final do quarto mandato do populista Roriz. Fomos para Itapuã, uma invasão até o ano passado. Lama e mais lama inclusive dentro do prédio novo da administração da "cidade". É nojento ver gente que vive literamente no lixo chamando o governador de Santo. Lula e Chavéz ficam no chinelo perto desse governador grilheiro e ligado ao jogo do bicho.

Enquanto Itapuã não tem nada, a quadrilha dele e de empresas ligadas ao bicheiro Carlos Cachoeira levaram nada menos do que R$ 2,6 bilhões em contratações irregulares na área de informática desde 1999. Descobri isso no segundo dia como repórter no Tribuna do Brasil. Claro que o jornal não deu uma linha. O Tribuna como os outros, inclusive o Correio onde fiquei até o final de 2005, dependem das verbas do Roriz.

Vcs devem estar pensando: não é quase nada diferente dos periódicos chapa branca de Floripa e além disso o cara não vê o mar. É quase isso, mas o mercado aqui é o maior do país para jornalistas e a cidade (o Plano Piloto) tem sim bastante qualidade de vida. Vou ficando por aqui, mas prometo contar mais peripécias e coisas da cidade federal.

Uma cidade puxa outra

- Vou mudar de cidade.
Decisão tomada, risco aceito. Fez montinhos: algumas roupas, as poucas economias. Avisou a família assim, de qualquer jeito, de bate-pronto.
- E você vai pra onde, meu filho?
Não tinha resposta para a pergunta do pai. Apenas queria mudar de cidade. Trocar o tédio pelo duvidoso.
- Você tem certeza disso?
- Claro, mãe. É isso o que eu quero.
Despediu-se. Recebeu algumas recomendações e partiu.

(...)

- Então, filho, como estão as coisas aí?
Pensou em responder com a verdade, mas preferiu tranqüilizar o pai.
- Está tudo bem, tudo tranqüilo.
Do outro lado da linha agora estava a mãe que falava da saudade que sentia. O filho, por sua vez, brigava com o vento para não perder os classificados do jornal.
- E o trabalho, como é?
Pensou em responder com a verdade, mas preferiu tranqüilizar a mãe.
- Olha, mais tarde eu volto à ligar. Tenho que desligar. Benção, mãe.
- Deus te abençoe, filho. Te cuida.

(...)

- Alô, pai, tudo bem?
- Oi, filho, tudo bem sim e você?
Pensou em responder com a saudade, mas preferiu tranqüilizar o pai.
- Está tudo indo muito bem. Estou gostando muito dessa cidade. O senhor precisa ver. As pessoas são ótimas, já fiz muitos amigos.
- E quando é que você volta?
Pensou em responder com a verdade, mas preferiu tranqüilizar o pai.
- Assim que tiver uma folga vou aí visitar vocês.
Ouviu a alegria do pai do outro lado da linha, enquanto fechava a porta do apartamento vazio.
- Agora tenho que ir.
E foi. Promovido e transferido pela empresa. Para mais longe, para outra cidade.
Pensou em contar a novidade, mas preferiu tranqüilizar o pai.

29 Março 2006

Cinema, papéis e catadores

A cidade vive lotada de papéis. São ofertas de empréstimos a juros baixos, financiamento de tudo o que se possa imaginar, anúncios de restaurantes, cartões de taxistas e vendedores de camelô, promoções de celulares sempre recheadas de descontos, tabelas de quantas calorias devemos comer, boletins e informes gratuitos sempre denunciando a desgraça de uma categoria ou anunciando as boas novas de algum candidatado. Esses papéis invarialvelmente vão parar em alguma parte da minha vida. Na roupa, se escondem nos bolsos da calça ou da jaqueta; no quarto, amontoam-se num canto, ao lado das pilhas de jornais ou nas gavetas, sempre abarrotadas. Os mais importantes são depositados com zelo em alguma caixa. Na pior das hipóteses, alojam-se sem eu saber na carteira onde ganham companhia de um talão de cheques amassado, extratos do banco e a anotação do lanche da tarde. Ou ficam no fundo da pasta, de onde só sairão depois da faxina semanal. Mais tempo ou menos tempo, todos esses papéis têm um destino certeiro: o saco do lixo.

Hoje eu recebi um desses papéis, que oferecia muito sem pedir um tostão em troca. Não, não era uma promessa de salvação de alguma igreja. Era o “Ciclo de filmes e debates: ditaduras e o cinema”, que acontece de “27 de março a 01 de abril, no auditório da Faed/Udesc, na rua Saldanha marinho, número 196, sempre às 18h30”. O filme em cartaz era Estado de Sítio, do Costa-Gravas, aclamado diretor grego que fez fama na década de 70 com obras de cunho político. O filme é excelente e conta o seqüestro do embaixador brasileiro e de um agente da CIA pelos guerrilheiros do Tupamaro. De brinde, o grupo CineArth, responsável pela mostra, realizou uma palestra com o escritor uruguaio Juan Luis Berterretche e com a professora de cinema e história da UFSC Fátima Lisboa.

Na volta para casa vi um catador revirando o lixo, na busca de garrafas de refrigerante ou latas de cerveja. Para meu azar não estava a procura de papel ou mesmo papelão, se estivesse poderia escrever esse texto como aprendi nas aulas do curso de jornalismo, onde o final se articula com a idéia inicial. Pena... Mesmo assim fica a dica – com a chegada do clima mais ameno trocar a cervejinha do happy hour por uma projeção de um bom filme numa sala escura. Para os interessado, abaixo a programação:

30/03/06 – Lamarca
Debatedores: Eliane Lisboa (jogral edição e artes ltda) e Maurício dos Santos (geografia da Udesc)

31/03/06 – Lúcio Flávio, o passageiro da agonia
Debatedores: José Paulino da Silva Júnior e Felipe Falcão (História da Udesc)

01/04/06 – Cabra Cega
Debatedores: Fátima Lima (artes cênicas da Udesc) e membro da delegação brasileira de psicanálise - SC

Sete cidades e sete frutíferas associações de idéias

Manaus - cupuaçu
Recife - pitomba
Floripa - butiá
Fortaleza - murici
Belém - manga
São Joaquim - maçã
Rancho Queimado - morango

Mais?

A Ilha

III. Ocupação

As cabeceiras das pontes de concreto foram demolidas. As duas estruturas dos vãos centrais foram unidas e transformadas numa ilha artificial no meio do canal que liga as baías Norte e Sul. Ali passaram a funcionar as sedes da VOC e da poderosa Polícia Naval (PN), a força militar de ocupação encarregada de restabelecer a ordem. A terceira ponte, antiga estrutura pênsil de metal desativada, mas alta o suficiente para escapar da elevação do nível do mar, foi recuperada para a passagem de um trem, agora o único acesso terrestre. Sem estrada de rodagem nem aeroporto (igualmente sob o oceano), a ilha passou a ter o mar como principal entrada.

As áreas dos morros, antes tomadas por favelas, passaram a ser valorizadas por estarem a salvo das marés e conterem preciosas fontes de água potável. Bairros inteiros foram comprados por investidores. Quando os traficantes recusaram-se a deixar suas bases, a Polícia Naval declarou guerra. Foram dois anos de bombardeio e combates a guerrilhas de narcotraficantes até que todos os morros fossem tomados pela PN e pela VOC.

Expulsos dos morros...

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28 Março 2006

A Ilha que acolhe, a cidade que adoto

Floripa. 280 anos de vida pública. Treze desses anos compartilhados por mim, um lageano que desceu a serra para estudar na UFSC e daqui nunca mais saiu. Não sei dizer se a Ilha me acolheu ou se fui eu que a adotei.

E é ela mesma, Floripa, que me encanta e seduz. Não é essa ou aquela administração pública, aquele ou outro empreendimento privado que me retém aqui. É ela, Floripa, com sua infinidade de praias, lagoas, cachoeiras, morros, todo tipo de recanto natural. Às vezes fico desanimado com a falta de oportunidades profissionais da cidade, penso em ir buscá-las em outro lugar, mas basta ver o pôr-do-sol, sentado em uma pedra isolada, para que esse pensamento logo se perca...

Também já caí na tentação de dizer “conheço todas as praias, todas as trilhas, todos os recantos”. Sem falsa modéstia, conheço muito, mas sempre mordo a língua e descubro um novo paraíso, algum lugar que não conheço, inclusive a cinco minutos de casa.

A ilha que confina

Moro na ilha há 5 anos, e literalmente moro só na ilha mesmo. Conheço tudo por aqui, do norte ao sul, acho que já fui em todas as praias e tenho mais orientação que muitos manezinhos que vivem aqui há 20, 30, 40 anos... Mas basta atravessar a ponte que eu me sinto completamente perdida.

Ultimamente fui obrigada a rodar mais pelo continente, seja com o carro do jornal ou com meu próprio carro (onde o perigo de me perder é maior). Já estou conseguindo me virar melhor, mas me sinto mal por ser tão ignorante em relação a um local que está tão perto de mim.

Conhecendo um pouco mais de São José, Palhoça, Santo Amaro, Gov. Celso Ramos e mesmo da Florianópolis continental, já consigo perceber uma realidade bem diferente do que vivemos aqui. Enxergo um povo mais simples, em alguns lugares me lembra algumas cidades minúsculas do interior de Minas Gerais, São Paulo.

É interessante saber que tem gente que, apesar de morar tão perto, fica anos sem ir à praia. Ou então conhecer, alí no continente, praias muito mais bonitas que as da ilha. E não estou falando só da Guarda do Embaú, que era a única que eu já tinha ido nessa região, até o ano passado.

Já estive em quase todo litoral catarinense, fui também a Lages (Festa do pinhão), Criciúma, Tubarão, Joinville, Blumenau (não foi na october), mas sinto que ainda preciso conhecer muita coisa. Sabe, depois desta descoberta da grande Florianópolis, quem sabe eu não parta rumo ao interior!

27 Março 2006

Ligação

A Ponte Hercílio Luz está para Florianópolis assim como o Cristo Redentor está para o Rio de janeiro. Quem disse isso foi Felipe Luz, secretário de estado do Planejamento e neto de Hercílio Luz, o "pai" da Ponte. A frase foi dita numa reunião com Sílvia Finguerut, representante da Fundação Roberto Marinho, que esteve em Florianópolis há uma semana para estudar o apoio (apoio, não patrocínio) da Fundação ao projeto de restauração da Ponte, cuja ordem de serviço foi assinada em fevereiro. Há poucos dias, com a parceria da Fundação, foi viabilizado em São Paulo o Museu da Língua Portuguesa. Apesar da diferença de cifras (o museu custou R$37 mi e a reforma da Ponte custa R$80 mi), é mais uma porta que se abre.
Acredito que a comparação com o Cristo seja apropriada. Só de imaginar a cidade sem a Ponte dá uma sensação ruim. A Hercílio Luz foi tombada em 1992 como Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico do Município, e é a única do mundo com sistema de olhais na estrutura.Tem 819m de comprimento e 75m de altura. Quando foi definitivamente fechada eu tinha oito anos. Mas a Ponte entrou na minha história bem antes, quando cheguei em Florianópolis para morar. Eu tinha um ano de idade. Ao chegar sobre a Ponte, meus pais ficaram tão emocionados que pararam o carro (naquele tempo o trânsito era outro). Minha mãe desceu comigo no colo, e fui pega de surpresa por um até então desconhecido vento sul. Por causa disso passei meu primeiro mês em Floripa no hospital, tratando de pneumonia. Ainda assim, não vejo a hora de atravessar a "ponte velha" de novo.

Aqui e agora?

Qual será o melhor lugar do mundo para se viver? De acordo com pesquisa divulgada no ano passado pelo Economist Intelligence Unit (EIU), da Inglaterra, o título vai para Vancouver, no Canadá. É verdade que a consulta considerou apenas 127 metrópoles, deixando de fora lugares que ainda não sofrem problemas típicos de cidades grandes.

Numa busca despretensiosa pelo Google – páginas do Brasil, encontrei outras respostas: Rio de Janeiro, Brasília, Rondônia, Aracaju, Curitiba, Santos, Tapejara (RS)... Como diz a música “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. Seria perfeito se fosse assim? Ou é melhor sonhar com algo mais, longe daqui...

A pesquisa da EIU considerou indicadores como segurança, infra-estrutura e oferta de bens e serviços. E para você, o que o melhor lugar do mundo precisa ter? Família, amigos, paz, justiça social, beleza natural... o que mais?

26 Março 2006

A Ilha

II. VOC

Os primeiros anos foram de caos absoluto. A inundação de grandes áreas costeiras inviabilizou a zona urbana da ilha. O grande aterro no acesso ao centro da cidade desapareceu sob vários metros de mar e as duas pontes paralelas ligando-o ao continente tornaram-se inúteis. A economia local, baseada nos serviços em torno do turismo e do centro administrativo, entrou em colapso. A capital do estado foi transferida para Blumenau. Traficantes de drogas tornaram-se os governantes efetivos de grandes áreas da ilha.

Chegaram então os agentes da Vereeridge Neederlandsche Geocitoyeerde Oast Compagnie, logo conhecida apenas como VOC. Com seu próprio país congelado, os holandeses formaram uma empresa especializada em adquirir possessões territoriais no ultramar e transformá-las em bases experimentais para novas tecnologias de convivência com o oceano, num mundo que aos poucos ficava embaixo d´água. A VOC obteve rapidamente do governo brasileiro uma concessão de 50 anos sobre a ilha, com o compromisso de transformá-la numa cidade viável.

As cabeceiras das pontes de concreto foram demolidas...

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