30 março 2006

Brasília e suas satélites de lama

Antes de mais nada, um grande abraço a toda a raça do blog. Saudades de vcs e de Floripa. No dia 24 deste mês, completei dois anos na capital federal. Acho que ainda não senti nenhum arrependimento pela mudança apesar de todos os pesares. Vivemos, eu o Botelho, pendurados no final da Asa Norte. Pra quem não conhece, o Plano Piloto é uma ilha cercada de miséria por todos os lados.

Outro dia tive que ir numa das mais de 300 obras inaguradas no final do quarto mandato do populista Roriz. Fomos para Itapuã, uma invasão até o ano passado. Lama e mais lama inclusive dentro do prédio novo da administração da "cidade". É nojento ver gente que vive literamente no lixo chamando o governador de Santo. Lula e Chavéz ficam no chinelo perto desse governador grilheiro e ligado ao jogo do bicho.

Enquanto Itapuã não tem nada, a quadrilha dele e de empresas ligadas ao bicheiro Carlos Cachoeira levaram nada menos do que R$ 2,6 bilhões em contratações irregulares na área de informática desde 1999. Descobri isso no segundo dia como repórter no Tribuna do Brasil. Claro que o jornal não deu uma linha. O Tribuna como os outros, inclusive o Correio onde fiquei até o final de 2005, dependem das verbas do Roriz.

Vcs devem estar pensando: não é quase nada diferente dos periódicos chapa branca de Floripa e além disso o cara não vê o mar. É quase isso, mas o mercado aqui é o maior do país para jornalistas e a cidade (o Plano Piloto) tem sim bastante qualidade de vida. Vou ficando por aqui, mas prometo contar mais peripécias e coisas da cidade federal.

Uma cidade puxa outra

- Vou mudar de cidade.
Decisão tomada, risco aceito. Fez montinhos: algumas roupas, as poucas economias. Avisou a família assim, de qualquer jeito, de bate-pronto.
- E você vai pra onde, meu filho?
Não tinha resposta para a pergunta do pai. Apenas queria mudar de cidade. Trocar o tédio pelo duvidoso.
- Você tem certeza disso?
- Claro, mãe. É isso o que eu quero.
Despediu-se. Recebeu algumas recomendações e partiu.

(...)

- Então, filho, como estão as coisas aí?
Pensou em responder com a verdade, mas preferiu tranqüilizar o pai.
- Está tudo bem, tudo tranqüilo.
Do outro lado da linha agora estava a mãe que falava da saudade que sentia. O filho, por sua vez, brigava com o vento para não perder os classificados do jornal.
- E o trabalho, como é?
Pensou em responder com a verdade, mas preferiu tranqüilizar a mãe.
- Olha, mais tarde eu volto à ligar. Tenho que desligar. Benção, mãe.
- Deus te abençoe, filho. Te cuida.

(...)

- Alô, pai, tudo bem?
- Oi, filho, tudo bem sim e você?
Pensou em responder com a saudade, mas preferiu tranqüilizar o pai.
- Está tudo indo muito bem. Estou gostando muito dessa cidade. O senhor precisa ver. As pessoas são ótimas, já fiz muitos amigos.
- E quando é que você volta?
Pensou em responder com a verdade, mas preferiu tranqüilizar o pai.
- Assim que tiver uma folga vou aí visitar vocês.
Ouviu a alegria do pai do outro lado da linha, enquanto fechava a porta do apartamento vazio.
- Agora tenho que ir.
E foi. Promovido e transferido pela empresa. Para mais longe, para outra cidade.
Pensou em contar a novidade, mas preferiu tranqüilizar o pai.

29 março 2006

Cinema, papéis e catadores

A cidade vive lotada de papéis. São ofertas de empréstimos a juros baixos, financiamento de tudo o que se possa imaginar, anúncios de restaurantes, cartões de taxistas e vendedores de camelô, promoções de celulares sempre recheadas de descontos, tabelas de quantas calorias devemos comer, boletins e informes gratuitos sempre denunciando a desgraça de uma categoria ou anunciando as boas novas de algum candidatado. Esses papéis invarialvelmente vão parar em alguma parte da minha vida. Na roupa, se escondem nos bolsos da calça ou da jaqueta; no quarto, amontoam-se num canto, ao lado das pilhas de jornais ou nas gavetas, sempre abarrotadas. Os mais importantes são depositados com zelo em alguma caixa. Na pior das hipóteses, alojam-se sem eu saber na carteira onde ganham companhia de um talão de cheques amassado, extratos do banco e a anotação do lanche da tarde. Ou ficam no fundo da pasta, de onde só sairão depois da faxina semanal. Mais tempo ou menos tempo, todos esses papéis têm um destino certeiro: o saco do lixo.

Hoje eu recebi um desses papéis, que oferecia muito sem pedir um tostão em troca. Não, não era uma promessa de salvação de alguma igreja. Era o “Ciclo de filmes e debates: ditaduras e o cinema”, que acontece de “27 de março a 01 de abril, no auditório da Faed/Udesc, na rua Saldanha marinho, número 196, sempre às 18h30”. O filme em cartaz era Estado de Sítio, do Costa-Gravas, aclamado diretor grego que fez fama na década de 70 com obras de cunho político. O filme é excelente e conta o seqüestro do embaixador brasileiro e de um agente da CIA pelos guerrilheiros do Tupamaro. De brinde, o grupo CineArth, responsável pela mostra, realizou uma palestra com o escritor uruguaio Juan Luis Berterretche e com a professora de cinema e história da UFSC Fátima Lisboa.

Na volta para casa vi um catador revirando o lixo, na busca de garrafas de refrigerante ou latas de cerveja. Para meu azar não estava a procura de papel ou mesmo papelão, se estivesse poderia escrever esse texto como aprendi nas aulas do curso de jornalismo, onde o final se articula com a idéia inicial. Pena... Mesmo assim fica a dica – com a chegada do clima mais ameno trocar a cervejinha do happy hour por uma projeção de um bom filme numa sala escura. Para os interessado, abaixo a programação:

30/03/06 – Lamarca
Debatedores: Eliane Lisboa (jogral edição e artes ltda) e Maurício dos Santos (geografia da Udesc)

31/03/06 – Lúcio Flávio, o passageiro da agonia
Debatedores: José Paulino da Silva Júnior e Felipe Falcão (História da Udesc)

01/04/06 – Cabra Cega
Debatedores: Fátima Lima (artes cênicas da Udesc) e membro da delegação brasileira de psicanálise - SC

Sete cidades e sete frutíferas associações de idéias

Manaus - cupuaçu
Recife - pitomba
Floripa - butiá
Fortaleza - murici
Belém - manga
São Joaquim - maçã
Rancho Queimado - morango

Mais?

A Ilha

III. Ocupação

As cabeceiras das pontes de concreto foram demolidas. As duas estruturas dos vãos centrais foram unidas e transformadas numa ilha artificial no meio do canal que liga as baías Norte e Sul. Ali passaram a funcionar as sedes da VOC e da poderosa Polícia Naval (PN), a força militar de ocupação encarregada de restabelecer a ordem. A terceira ponte, antiga estrutura pênsil de metal desativada, mas alta o suficiente para escapar da elevação do nível do mar, foi recuperada para a passagem de um trem, agora o único acesso terrestre. Sem estrada de rodagem nem aeroporto (igualmente sob o oceano), a ilha passou a ter o mar como principal entrada.

As áreas dos morros, antes tomadas por favelas, passaram a ser valorizadas por estarem a salvo das marés e conterem preciosas fontes de água potável. Bairros inteiros foram comprados por investidores. Quando os traficantes recusaram-se a deixar suas bases, a Polícia Naval declarou guerra. Foram dois anos de bombardeio e combates a guerrilhas de narcotraficantes até que todos os morros fossem tomados pela PN e pela VOC.

Expulsos dos morros...

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28 março 2006

A Ilha que acolhe, a cidade que adoto

Floripa. 280 anos de vida pública. Treze desses anos compartilhados por mim, um lageano que desceu a serra para estudar na UFSC e daqui nunca mais saiu. Não sei dizer se a Ilha me acolheu ou se fui eu que a adotei.

E é ela mesma, Floripa, que me encanta e seduz. Não é essa ou aquela administração pública, aquele ou outro empreendimento privado que me retém aqui. É ela, Floripa, com sua infinidade de praias, lagoas, cachoeiras, morros, todo tipo de recanto natural. Às vezes fico desanimado com a falta de oportunidades profissionais da cidade, penso em ir buscá-las em outro lugar, mas basta ver o pôr-do-sol, sentado em uma pedra isolada, para que esse pensamento logo se perca...

Também já caí na tentação de dizer “conheço todas as praias, todas as trilhas, todos os recantos”. Sem falsa modéstia, conheço muito, mas sempre mordo a língua e descubro um novo paraíso, algum lugar que não conheço, inclusive a cinco minutos de casa.

A ilha que confina

Moro na ilha há 5 anos, e literalmente moro só na ilha mesmo. Conheço tudo por aqui, do norte ao sul, acho que já fui em todas as praias e tenho mais orientação que muitos manezinhos que vivem aqui há 20, 30, 40 anos... Mas basta atravessar a ponte que eu me sinto completamente perdida.

Ultimamente fui obrigada a rodar mais pelo continente, seja com o carro do jornal ou com meu próprio carro (onde o perigo de me perder é maior). Já estou conseguindo me virar melhor, mas me sinto mal por ser tão ignorante em relação a um local que está tão perto de mim.

Conhecendo um pouco mais de São José, Palhoça, Santo Amaro, Gov. Celso Ramos e mesmo da Florianópolis continental, já consigo perceber uma realidade bem diferente do que vivemos aqui. Enxergo um povo mais simples, em alguns lugares me lembra algumas cidades minúsculas do interior de Minas Gerais, São Paulo.

É interessante saber que tem gente que, apesar de morar tão perto, fica anos sem ir à praia. Ou então conhecer, alí no continente, praias muito mais bonitas que as da ilha. E não estou falando só da Guarda do Embaú, que era a única que eu já tinha ido nessa região, até o ano passado.

Já estive em quase todo litoral catarinense, fui também a Lages (Festa do pinhão), Criciúma, Tubarão, Joinville, Blumenau (não foi na october), mas sinto que ainda preciso conhecer muita coisa. Sabe, depois desta descoberta da grande Florianópolis, quem sabe eu não parta rumo ao interior!

27 março 2006

Ligação

A Ponte Hercílio Luz está para Florianópolis assim como o Cristo Redentor está para o Rio de janeiro. Quem disse isso foi Felipe Luz, secretário de estado do Planejamento e neto de Hercílio Luz, o "pai" da Ponte. A frase foi dita numa reunião com Sílvia Finguerut, representante da Fundação Roberto Marinho, que esteve em Florianópolis há uma semana para estudar o apoio (apoio, não patrocínio) da Fundação ao projeto de restauração da Ponte, cuja ordem de serviço foi assinada em fevereiro. Há poucos dias, com a parceria da Fundação, foi viabilizado em São Paulo o Museu da Língua Portuguesa. Apesar da diferença de cifras (o museu custou R$37 mi e a reforma da Ponte custa R$80 mi), é mais uma porta que se abre.
Acredito que a comparação com o Cristo seja apropriada. Só de imaginar a cidade sem a Ponte dá uma sensação ruim. A Hercílio Luz foi tombada em 1992 como Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico do Município, e é a única do mundo com sistema de olhais na estrutura.Tem 819m de comprimento e 75m de altura. Quando foi definitivamente fechada eu tinha oito anos. Mas a Ponte entrou na minha história bem antes, quando cheguei em Florianópolis para morar. Eu tinha um ano de idade. Ao chegar sobre a Ponte, meus pais ficaram tão emocionados que pararam o carro (naquele tempo o trânsito era outro). Minha mãe desceu comigo no colo, e fui pega de surpresa por um até então desconhecido vento sul. Por causa disso passei meu primeiro mês em Floripa no hospital, tratando de pneumonia. Ainda assim, não vejo a hora de atravessar a "ponte velha" de novo.

Aqui e agora?

Qual será o melhor lugar do mundo para se viver? De acordo com pesquisa divulgada no ano passado pelo Economist Intelligence Unit (EIU), da Inglaterra, o título vai para Vancouver, no Canadá. É verdade que a consulta considerou apenas 127 metrópoles, deixando de fora lugares que ainda não sofrem problemas típicos de cidades grandes.

Numa busca despretensiosa pelo Google – páginas do Brasil, encontrei outras respostas: Rio de Janeiro, Brasília, Rondônia, Aracaju, Curitiba, Santos, Tapejara (RS)... Como diz a música “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. Seria perfeito se fosse assim? Ou é melhor sonhar com algo mais, longe daqui...

A pesquisa da EIU considerou indicadores como segurança, infra-estrutura e oferta de bens e serviços. E para você, o que o melhor lugar do mundo precisa ter? Família, amigos, paz, justiça social, beleza natural... o que mais?

26 março 2006

A Ilha

II. VOC

Os primeiros anos foram de caos absoluto. A inundação de grandes áreas costeiras inviabilizou a zona urbana da ilha. O grande aterro no acesso ao centro da cidade desapareceu sob vários metros de mar e as duas pontes paralelas ligando-o ao continente tornaram-se inúteis. A economia local, baseada nos serviços em torno do turismo e do centro administrativo, entrou em colapso. A capital do estado foi transferida para Blumenau. Traficantes de drogas tornaram-se os governantes efetivos de grandes áreas da ilha.

Chegaram então os agentes da Vereeridge Neederlandsche Geocitoyeerde Oast Compagnie, logo conhecida apenas como VOC. Com seu próprio país congelado, os holandeses formaram uma empresa especializada em adquirir possessões territoriais no ultramar e transformá-las em bases experimentais para novas tecnologias de convivência com o oceano, num mundo que aos poucos ficava embaixo d´água. A VOC obteve rapidamente do governo brasileiro uma concessão de 50 anos sobre a ilha, com o compromisso de transformá-la numa cidade viável.

As cabeceiras das pontes de concreto foram demolidas...

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25 março 2006

Tornado em Ingleses

Da sala, na minha frente, vi o chumbo por trás dos montes. Mas à minha esquerda a situação estava pior. A massa de nuvens pesadas riscavam relâmpagos que assustavam a varanda. Fiquei um pouco na rede até que um raio caiu bem perto. Foi a luz intensa que caiu com estrondo, como um arco voltaico. A chuva, até então tímida, começou a apertar. Falei: é ciclone, vamos fechar tudo. Mas a chuva continuou daquele jeito e nenhum pé de vento mais forte nos pegou de frente.

Só no dia seguinte vi que o estrago passou a uns três quilômetros de onde moro. Tetos no ar, casas a céu aberto, árvores caídas. Escapamos por pouco. Não temos nada que nos defenda dos fortes ventos e vivemos numa ilha. Dependemos da sorte e da proteção divina. Pessoas próximas me ligam ou escrevem para saber se estamos bem. Choveu, disse, e de repente a lembrança da massa de nuvens se forma na minha frente, como um pesadelo. Com meu tamanho, um vento desses me levava para o alto mar.

No fundo o vento é um mistério. Falam em massa de ar fria se chocando contra o calor. Explicam isso todos os dias, para a gente acreditar. Para mim, o vento nasce onde quer e faz o roteiro que bem entende. Talvez tenha um DNA, um programa no seu movimento, que ainda não deciframos. Talvez sejam os espíritos, que adoram nos assustar.

24 março 2006

Não pode multar

Muitas vezes é difícil fazer uma cidade funcionar porque as autoridades municipais atrapalham. Na segunda-feira, Eduardo Maciel Felix cumpriu seu dever de ofício. Em serviço como guarda municipal de São José, na Grande Florianópolis, multou dois motoristas por infração de trânsito. Mas Felix acabou punido por seu chefe, Francisco João da Silva, secretário municipal de Segurança e Defesa Social, com afastamento da função. É que ele multou as pessoas erradas. Um deles é o superintendente da Fundação Municipal do Meio Ambiente. O outro, nada menos que o filho do prefeito (que também tem um carguinho na administração). A história está na edição de hoje do AN Capital, suplemento regional do jornal A Notícia.

23 março 2006

Só em Floripa


Nasci gaúcha, mas aprendi a andar e a falar em Floripa. Ainda assim, não mereço o estatus de manezinha. É meio complicado explicar o que é isso pra quem não conhece a cidade. Não é só um jeito de falar, mas de ser. E também tem variantes - o bom e o mau manezinho.
Hoje foi dia de ver uma amostra significativa da boa manezada reunida, no Ricaldinho da Ilha. A festa, em comemoração ao aniversário da cidade e também de um ex-colunista de Floripa, o Ricardinho Machado, reúne algumas centenas de pessoas em uma área aberta praticamente debaixo da Ponte Hercílio Luz, com direito a muita música, bebida e caldinhos variados, principalmente de frutos do mar. É uma chance de ver o manezês sendo exercitado em sua forma mais pura e de entender porque Floripa virou mania nacional. Parabéns, Ilha querida!

Feliz aniversário

Feliz aniversário, Floripa! Há exatos vinte anos, dois meses e onze dias eu desembarquei em você primeira vez, vindo de Natal, e resolvi ficar. Troquei um paraíso por outro. A generosidade e beleza da nova paixão me ajudaram a superar a saudade da "cidade do sol". Desde então você ganhou muita coisa e perdeu muito também, mas continua me encantando. Escrevo de um cibercafé em São Paulo, então vou ser breve. Agradeço aos deuses do destino por terem colocado essa "ilha da magia" no meu caminho. Em Floripa me formei, encontrei a amada, gerei dois filhos, conheci amigos maravilhosos e aprendi muito. Hoje me orgulho de dizer que você é o meu porto seguro. Continuo apaixonado pelas viagens, mas a cada vez que cruzo a ponte ou decolo do aeroporto, sinto um gostinho delicioso: a antecipação do prazer do retorno.

Luz no fim do túnel

Um dos eventos em comemoração ao aniversário da cidade (além dos shows na Passarela Nego Quirido) é a Maratona Fotográfica de Florianópolis, realizada no próximo final de semana (25 e 26 de março). Será a 12ª edição do desafio. Já participei em outras ocasiões e tive duas fotos premiadas individualmente na categoria digital, entre elas esta ao lado. O tema, se não me engano, era "Florianópolis rumo aos 300 anos".

Essa questão da foto temática é a parte mais interessante da Maratona; você exercita a criatividade e depois confronta com as idéias dos outros. Mais detalhes sobre o evento no site da Fundação Franklin Cascaes.

A ilha e seus mirantes

Seja um mirante natural, pouco explorado, ou alguma construção/restaurante no alto de um morro sempre cheio de turistas. Se Florianópolis tem algo quase irretocável este algo é a beleza natural. Beleza que vem sendo prejudicada no decorrer do tempo pela poluição, ocupações irregulares, mas ainda é o maior patrimônio desta cidade.

O verde, as praias, a Lagoa (foto), as dunas, os passáros, o ceú azul, tudo isso passa uma energia, uma sensação de estar vivo. Não existe remédio melhor para aqueles dias de desânimo, tristeza ou simplesmente nostalgia. Olhar tudo o que temos, toda essa natureza, me faz pensar que os problemas têm solução, que, se tudo aquilo a minha frente existe, as minhas dúvidas os meus dramas são quase nada.

A Ponte Velha


Eu tive o prazer de passar pela Ponte Hercílio Luz, antes de ela ser fechada para o trânsito, em 1982. E era realmente um prazer. Lembro que eu e meus irmãos ficávamos eufóricos ao atravessá-la, nas raras vezes em que minha mãe nos trazia para "a cidade". Era assim que chamávamos Florianópolis. Sair de Antônio Carlos, município interiorano a 40 quilômetros da Capital, e vir para a Ilha era "o" programa. E passar pela "ponte velha" era um dos momentos mais aguardados. Não sei explicar bem o que sentia, um misto de feitiço ao dar de cara com a grandiosidade daquelas torres de aço, e medo da imensidão do mar lá embaixo. Sei que jamais vou sentir isso de novo. Eu cresci. Certamente com seis, sete anos de idade, a Hercílio Luz me parecia bem maior. Mas, sempre que retorno de uma viagem longa e vejo a ponte velha, volto a ter a sensação de estar em casa.

A Ilha

I. Desterro

De uma cidade brasileira em expansão, a ilha converteu-se numa concessão privada de uma companhia estrangeira, ao fim de uma década de transformação violenta. O antigo nome da ilha, abandonado havia mais de um século, foi restaurado com uma surpreendente atualidade para a nova situação: Desterro. Nunca, em seus 350 anos de história, a cidade havia assistido a uma transferência tão rápida e dramática de populações. Quase ninguém ficou onde estava.

O aviso veio pouco antes da década fatal. Depois de um século XX traumático, em que o mundo aprendeu a temer a guerra, um novo alarme global soou nos primeiros anos do século XXI: o clima do planeta estava mudando mais rápido do que previam os cientistas. A elevação do nível do mar em nove metros e o congelamento do Norte Europeu transformariam completamente uma cidade instalada numa ilha costeira da América do Sul.

Os primeiros anos foram de caos absoluto...

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22 março 2006

192 posts depois...

O Verão do +D1 de A a Z:

Aventura
Bolso
Cardápio
Dicas
Escolhas
Folclore
Gringos
História
Informação
Jacaré
Lugar
Mirante
Nativos
Ônibus
Paisagem
Qualidade de vida
Roteiro
Saudade
Trânsito
Ultra-violeta
Vento
Xarjincasa
Zoom

+D1 agradecimento
Com essa lista, feita em parceria com Cléia Schmitz, Kátia Negreiros e Gustavo Cabral, o +D1 encerra o tema Verão. Além de saudar a participação de todos os envolvidos diretamente neste projeto, queremos agradecer também todos os que visitaram o blog e deixaram seus comentários, em especial Ana Paula Luckman, Alexandre Wisintainer, Caio Belludo e Raul Ribeiro, “membros honorários” do +D1.

Novo tema e “edição especial”
A partir desta quinta-feira (23), o +D1 estréia o nono tema: Cidade - a minha, a sua e a nossa. E para marcar a mudança de tema, os textos do +D1 deste dia 23 vão tratar apenas sobre Florianópolis, que estará completando 280 anos. Contamos com a audiência de todos.

21 março 2006

Bye bye Verão

O amanhecer ameno e o calendário informam: Verão 2005/2006 agora é só lembrança. As vitrines de lojas também nos lembram que a cor da moda outono-inverno é púrpura e as mangas compridas voltam a reinar. Tempo de tirar os casacos do armário e botar no varal. De observar a sutil mudança no caminhar do sol, agora nascendo mais pra Nordeste e passando a cada dia mais inclinado no horizonte. Preparar a câmera fotográfica pra captar a luz mais suave. Curtir bons vídeos e livros nos dias de chuva. Ir pra praia de bermuda, chinelo e jaqueta. Trocar a cerveja pelo vinho - ou quem sabe conciliar os dois enquanto é meia estação. Tempo de observar a transformação nas plantas, a muda de pêlo nos animais. Dar um pulo às termas de Caldas da Imperatriz. Guardar os ventiladores. Começar a pensar num fundue. Valeu, Verão. Toda a praia que peguei foi pouca, mas espero pelo Veranico de maio.

20 março 2006

FARRA DO BOI


Assunto pedreira. No fim-de-semana, em Itapema, morreu um garoto, que caiu do caminhão no momento da farra; no Santinho, um boi invadiu uma propriedade. Há 25 anos participei de uma campanha publicitária na Propague contra a farra. Duas décadas e meia! E o assunto continua na mesma.

A farra é uma tourada popular não disciplinada. Ao contrário, reprimida e negada. Idêntico ao que acontecia com o entrudo, o Carnaval sem lei das ruas, onde havia toda espécie de violência. Os blocos saíam acompanhados dos capoeiras, uma escolta para enfrentar os adversários. O desfile oficial das escolas de samba foi uma invenção dos anos 30: uma intervenção do Estado que disciplinou o Carnaval e que persiste até hoje.

Em Pamplona, na Espanha, há uma gigantesca farra do boi que foi disciplinada pelo Estado: marca-se uma data, define-se um trajeto para os bois correrem soltos (porque esse é o sabor da tourada) e quem quiser entra no meio. Os bichos têm uma vantagem: podem perseguir os loucos que entram no caminho, mas acabam da mesma forma do que na farra por aqui: acabam sacrificados.

É possível que a crueldade na farra do boi entre nós tenha sido trazido por migrantes não identificados com a alegria da festa. A tourada popular era uma brincadeira, um pacto comunitário, de perseguição e cerco a um animal fora do curral, que era enfrentado de mãos limpas. Transformar o jogo em tortura, em encontro de sadismo, foi uma distorção de tudo o que o povo cultivava desde os tempos de colônia. Ou talvez seja mesmo a brutalização dos costumes, que atinge pessoas dentro e fora da região.

O problema é que tudo o que é autenticamente popular é proibido. Foi assim com a capoeira, a umbanda e agora com a farra do boi. Proibir sem ter como reprimir (a polícia de Itapema disse não ter efetivos para acabar com o evento) só serve para incentivar o aspecto transgressor, em detrimento do aspecto lúdico.

A grande farra do boi (vá lá, dos touros) de Pamplona é notícia todos os anos e um gigantesco gerador de recursos. Ninguém fala em barbárie de país não-civilizado, já que a Espanha é um país rico. Nossa farra do boi, sem sadismo nem crueldade, apenas um jogo de pega-pega entre pessoas e animais, poderia ser tratado com mais inteligência. Longe do falso debate entre virtuosos e pecadores.

Só não pode ficar do jeito que está.

16 março 2006

Enquete no ar

Com o fim do Verão se aproximando, +D1 prepare-se para “virar a folhinha” e adotar uma novo tema - o que irá acontecer na semana que vem. Até lá, enquanto preparamos a mudança, queremos saber a sua opinião: Com qual freqüência você acessa o +D1?

Para opinar, vá até a área Enquete na coluna ao lado ou clique aqui.

15 março 2006

Lagoa da Conceição: ontem, hoje e amanhã(3)


A última da série, para ilustrar o momento de transformação pelo qual passa o blog. Diferentemente dos gifs anteriores (o primeiro aqui e o segundo aqui), neste a vista não é panorâmica, mas da superfície da lagoa. No quinto croqui, segundo o autor, a Lagoa em 2200. Os netos dos nossos netos serão testemunhas...

Os croquis são do arquiteto Marcelo Cabral Vaz e a montagem em gif animado foi feita pelo programador Sérgio Surkamp.

13 março 2006

Que saudade

Ai que coisa boa puxar o lençol no meio da noite, ter aquela sensação de friozinho, acordar de manhã com uma brisa fresca... pena que meia hora depois o calor já toma conta, mesmo em dias que não tem sol, como hoje. Não vejo a hora do inverno chegar. Nada mais de suor, chega o momento de dormir enroladinho no edredon, fazer bolinho de chuva, capucino, sopinha... É, do jeito que o calor tem aumentado vai ficar cada vez mais difícil fazer isso e até quem detesta o inverno vai ficar com saudade.

O dia depois de amanhã

A temporada acabou, mas o verão promete continuar. Com o planeta cada vez mais quente, talvez dentro de pouco tempo seja verão o ano inteiro, o que não é exatamente uma boa notícia. Principalmente para quem mora perto do mar. Se alguns cientistas estiverem certos e todo mundo continuar mandando fumaça para cima a torto e a direito, as geleiras dos pólos vão diminuir e o nível do mar vai subir (em escala ainda não claramente perceptível, isso já acontece). E aí acabou-se a praia, pessoal. Bem, no caso de Florianópolis, talvez acabou-se a cidade.

12 março 2006

tá acabando...

Percebi, ontem, e apenas ontem, que o verão tá acabando, graças a uma atenta observação do meu dia.
- 80% do comércio de Canasvieiras está devidamente fechado, com direito a cadeadão, correntão e placão de aluga-se. Tudo com "ão" mesmo, pra gente ter certeza que eles só voltam em dezembro - se voltarem;
- de 36 apartamentos existentes em meu condomínio, apenas 6 encontram-se ocupados. Por famílias (inclusive a minha) que já estavam por aqui antes da temporada;
- no supermercado, só tem fornada de pão uma vez por dia, a coca-cola é sempre quente e o Nutella voltou às prateleiras (como argentino gosta de coca-cola gelada, pão e Nutella, minha gente!);
- na praia acabou o lixo, a barraca de milho, a carrocinha da pinga /chorripan e o bar de pagode (ah, como Deus é Pai!)...
Mas sei que o meu "sossego" tem prazo de validade. A data: 15 de dezembro. É incrível: até o dia 14, fica tudo às moscas. Chega o dia 15, isso aqui fica tão diferente... que eu aguardo março ansiosa outra vez :P

11 março 2006

Virações de março

Estações ficam fora da ordem quando vivemos numa cidade gigantesca, onde faz todo tipo de clima num dia só. Lá, perdemos a noção que nos embala desde a infância, quando a estabilidade das temporadas servem de base para uma vida estável.

Quando vejo esses dias de março, com um vento já quase frio (pelo menos aqui no norte da ilha), lembro que esse era o mês em que voltávamos ao colégio, depois do longo e interminável verão. Cheiro de livro novo, a agitação das aulas, a saída em algazarra e as primeira providências: camisa de manga comprida, um casaco leve, um gorro.

Era só avançarmos no outono para já sentirmos falta do verão, principalmente da liberdade, quando o que havia era o pé no chão, calção sem camisa, futebol até o campinho virar breu e nos orientarmos apenas pela bola branca que rolava embaixo do céu estrelado. Talvez o veranico, que pode cair em maio ou junho, seja isso mesmo: saudade do verão recente. Mas não podemos ainda ter esse tipo de sentimento, pois os dias anteriores foram de lascar: um mormaço tremendo.

Para não dizer que a falta de assunto nos leva a comentar o clima, digo apenas que março é o ano que se abre para nós como um livro de promessas. O que adiamos por puro deleite ou preguiça começa a tomar conta das nossas rotinas. Aquele livro enviado pela amizade distante, a história que ficou no meio e ainda não escrita, o passo para fazer da vida algo fora desse labirinto, tudo conta quando o tempo dá as caras com suas mudanças. Estamos concentrados para a Copa, tememos o início das campanhas eleitorais, perguntamos o que será da cidade que se transforma, do aperto e da vontade que temos de virar o jogo.

É assim mesmo o texto sobre qualquer coisa: conseguimos chegar à última linha sem acrescentar quase nada. Mas a conversa, no redemoinho das estações, é o hábito mais gratificante quando ainda temos uma civilização.

10 março 2006

Banho de mangueira

O banho de chuveirão, que o colega Dauro mencionou no comentário do post abaixo, me fez lembrar dos banhos de mangueira que eu tomava quando criança. Eram raros, é verdade, mas talvez por isso tão saudosos. Acho que minha mãe temia que aquela água fria nos trouxesse um resfriado. Pelo mesmo motivo, era sempre um chororô antes de ela deixar a gente megulhar no rio e, na volta, tomar banho no tanque de lavar roupa (aqueles enormes que nós chamávamos de cocho). Estás certo Dauro, quem não tem cão (banheira, piscina), caça com gato. Ontem, ao subir o danado do morro da Serrinha para chegar no meu apartamento, vi um moço regando as plantas de mangueira. Quase parei e disse: pode me molhar também!

06 março 2006

Verão infernal!

Amantes do verão, podem me bater, estou cansada de tanto calor. Se ainda pudesse ficar na praia me refrescando... Se tivesse uma banheira lá em casa... ou uma piscina (na sombra!). O ar-condicionado do escritório não dá mais conta, nem os ventiladores do apartamento, minhas manchas no rosto estão cada vez mais visíveis, não tem bloqueador solar que resolva...

Não estou pedindo frio, mas só um pouquinho de ar fresco, 18, 20 graus tá bom. Alguém concorda?

01 março 2006

Povo festeiro

Impressionante a força do carnaval de rua em Floripa esse ano. Por duas ocasiões - sábado e segunda - pude conferir in loco a movimentação popular no centro da cidade. No sábado à tarde uma multidão assistiu e seguiu os blocos de sujo pelas principais ruas, fazendo a tradicional volta pela Praça XV de Novembro.
Na segunda à noite quase 20 mil pessoas se aglomeraram nos arredores da rua Hercílio Luz para assistir o Concurso Pop Gay, que pelo 13º elegeu as mais belas e originais drag queens. Nesse evento, especificamente, a programação é voltada para o público gay, inclusive com apresentação de go-go boys. Mas nos dois casos o que me chamou mais atenção foi a grande quantidade de famílias e casais com crianças, além de senhoras mais velhas. Também nos bailes públicos que aconteciam em frente à catedral, esse era o perfil da maioria do público.
Depois fiquei sabendo que houve confusão e tumulto de madrugada durante o Pop Gay. Mas até meia-noite, pelo menos, o clima era de tranquilidade total.
O desfile das escolas de samba também foi super concorrido, com disputa pelos ingressos. Além disso teve festas particulares pra todos os gostos: com e sem fantasia, com marchinha de carnaval ou música eletrônica.
Ficou evidente que a festa está ganhando mais força e se tornando um dos pontos altos do verão em Floripa.